Livros infantis: quando a literatura ajuda a dar novos significados ao que vivemos
Updated: Sep 28

Como A Cidade da Joaninha, que nasceu em meio às enchentes no Rio Grande do Sul, transformou uma necessidade real em uma história para crianças
Em maio de 2024, quando as águas avançaram sobre Porto Alegre e outras cidades do Rio Grande do Sul, eu ainda morava na capital gaúcha, cidade onde nasci e vivi até o ano passado.
Como todos por lá, acompanhei de perto uma situação difícil de acreditar. Ruas conhecidas debaixo d'água, milhares de pessoas abandonando suas casas e a rotina da cidade completamente transformada.
Uma pessoa que conheço, proprietária de uma empresa de recreação infantil e responsável também por um projeto social, estava cuidando de um grupo de crianças enquanto seus pais tentavam limpar as casas atingidas pela água. Ela própria havia tido sua casa inundada.
Muitas daquelas crianças tinham vivido a enchente de perto. Haviam deixado seus lares às pressas, abandonando brinquedos, roupas e tudo o que tinham. Por isso, qualquer novo sinal de chuva por aqueles dias era suficiente para assustá-las.
Em meio a esse cenário, essa amiga me fez um pedido diferente: será que eu poderia escrever algumas histórias que mostrassem a chuva como amiga, e não como vilã, para ajudar a tranquilizar as crianças?
Foi assim que nasceu A Cidade da Joaninha: como uma pequena história, com um objetivo gigante, que acabou virando livro infantil.
Neste artigo, a partir da história de A Cidade da Joaninha, vamos falar sobre os cuidados ao abordar temas sensíveis com o público infantil e como a literatura pode ajudar crianças a compreender sentimentos, conhecer outras realidades e construir novos significados para suas experiências.
Como falar sobre um trauma sem repetir a história traumática?
Quando A Cidade da Joaninha foi escrita, já circulavam, nas redes sociais, algumas historinhas criadas com a intenção de ajudar as crianças a compreender o que havia acontecido. Algumas, porém, reconstruíam justamente o episódio traumático: a água entrando nas casas, as famílias deixando tudo para trás, os resgates.
Eu queria seguir por outro caminho.
Para muitas daquelas crianças, essas cenas não pertenciam ao universo da ficção. Elas tinham acabado de vivê-las. No meu entendimento, voltar à enchente reforçaria ainda mais o medo. Era preciso criar uma história na qual a chuva ocupasse um lugar diferente.
E se a chuva pudesse ser justamente a solução de um problema?
Foi invertendo a lógica que nasceu o universo de A Cidade da Joaninha.
Na história, a falta de chuva é que provoca um problema, e sua chegada passa a ser altamente desejada. Essa inversão possibilitou mostra-la por um outro olhar, sem negar aquilo que as crianças haviam vivido nem tentar somente convencê-las de que a chuva é “boa”.
Depois de uma enchente daquela dimensão, o medo tinha uma razão para existir. O que a literatura poderia fazer era oferecer outra experiência possível com a mesma chuva que, em Porto Alegre, havia provocado destruição.
Ressignificar não significa apagar uma experiência difícil ou fingir que ela não aconteceu. Significa possibilitar que, junto àquele significado, outros também possam existir. A Cidade da Joaninha oferece justamente isso: um espaço seguro para experimentar situações, emoções e possibilidades por meio de personagens e um universo diferentes.
A estratégia foi validada pela psicóloga gaúcha Juliana Potter, especialista em luto e desenvolvimento emocional infantil e uma das autoras do livro Crianças Bem Conectadas, que leu em primeira mão a história da Joaninha e fez contribuições valiosas para aprimorar a abordagem.
Um livro para crianças de todos os lugares do Brasil
O livro nasceu em consequência das enchentes de 2024 e foi pensado para as crianças do Sul do país, mas é capaz de conversar com o público infantil de modo geral.
Medo de chuva faz parte de algumas fases da infância, independente de experiências traumáticas. E para além da ocorrência cada vez mais frequente de inundações, a seca é uma realidade no Brasil. Logo, uma criança não precisa ter vivido uma enchente ou uma seca destrutiva para se reconhecer na Joaninha, ainda que cada criança interprete a história da personagem a partir do seu próprio repertório.
Para algumas, A Cidade da Joaninha fala sobre chuva. Para outras, sobre não poder brincar ou ir à escola. Para outras mais, sobre a solução para uma situação triste. Ou seja: fala sobre medo, insegurança, mudanças, adversidades, relação com a natureza e possibilidade de encontrar novos significados para experiências difíceis.
Essa é uma das possibilidades mais bonitas da literatura infantil: uma mesma história pode levar o pequeno leitor a encontrar dentro dela mensagens completamente diferentes.
Um livro, muitas possibilidades de trabalho
A Cidade da Joaninha pode servir como ponto de partida para diferentes trabalhos.
Na escola, a leitura pode abrir espaço para falar sobre emoções, medos, natureza, chuva, água, eventos climáticos, meio ambiente e vários outros assuntos por meio de rodas de conversa, desenhos, produção de textos, pesquisas e projetos interdisciplinares.
Psicólogos e outros profissionais que trabalham com a infância podem utilizar o livro como elemento mediador para conversas sobre sentimentos e experiências, respeitando, naturalmente, as necessidades e particularidades de cada criança.
Bibliotecas e projetos de incentivo à leitura podem partir da história da Joaninha para discutir diferentes realidades e estimular as crianças a contar, desenhar ou escrever suas próprias experiências.
Projetos sociais, organizações e programas socioambientais também podem se beneficiar do livro para abordar temas como comunidade, natureza, água, adversidades e a maneira como as pessoas se mobilizam diante de situações difíceis.
A Cidade da Joaninha e a BNCC
Todas essas possibilidades de trabalho com A Cidade da Joaninha estão alinhadas aos Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Os TCTs têm justamente a proposta de aproximar diferentes componentes curriculares de questões presentes na realidade dos estudantes, trazendo contexto e contemporaneidade para a aprendizagem.
A conexão mais direta de A Cidade da Joaninha está na macroárea Meio Ambiente, especialmente no tema Educação Ambiental. O material oficial do MEC prevê o trabalho com Educação Ambiental tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental, articulado às competências e habilidades da BNCC.
A partir da mediação realizada pelo educador e das atividades propostas, a obra também permite estabelecer diálogos com temas como Saúde, Vida Familiar e Social, Direitos da Criança e do Adolescente e Educação em Direitos Humanos, contemplados entre os temas contemporâneos que podem ser incorporados às propostas pedagógicas de forma transversal e integradora.
Além dos TCTs, o trabalho com o livro pode contribuir para o desenvolvimento de algumas das 10 Competências Gerais da BNCC, previstas para toda a Educação Básica.
Entre elas, destaca-se a competência 8 — Autoconhecimento e Autocuidado, que envolve reconhecer as próprias emoções e as dos outros e desenvolver a capacidade de lidar com elas. Ao acompanhar os sentimentos e as experiências de Joaninha, as crianças podem encontrar um ponto de partida para identificar e conversar sobre seus próprios medos e outras emoções.
A obra também abre possibilidades para trabalhar a competência 9 — Empatia e Cooperação, relacionada ao diálogo, à empatia, ao respeito ao outro e à cooperação, especialmente quando a leitura é utilizada para conhecer e conversar sobre experiências e realidades diferentes das vividas por cada criança.
Já a competência 10 — Responsabilidade e Cidadania - inclui, entre outros aspectos, agir com responsabilidade, flexibilidade e resiliência e tomar decisões pautadas também por princípios sustentáveis e solidários. A relação com a natureza, a importância da água e as diferentes formas de enfrentar adversidades presentes na história podem servir como ponto de partida para desenvolver esses aspectos em atividades conduzidas pelos educadores.
Dependendo da proposta pedagógica desenvolvida a partir da leitura, A Cidade da Joaninha também pode contribuir para outras competências, como Comunicação, ao estimular crianças a expressar ideias, experiências e sentimentos por diferentes linguagens, e Pensamento Científico, Crítico e Criativo, em atividades que explorem fenômenos naturais, a água e a relação entre chuva, ambiente e vida.
Mais do que ensinar um conteúdo, porém, a literatura tem o poder de criar um espaço para que esses assuntos apareçam de maneira orgânica: primeiro vem a história. Depois vêm as perguntas que ela desperta.
Um livro que começou como um PDF
Quando escrevi A Cidade da Joaninha, não estava pensando em publicar um livro. A história tinha o propósito imediato de chegar àquele pequeno grupo de crianças.
Mas eu não queria entregar simplesmente um arquivo de Word em preto e branco, sem vida — minha ideia era que aquilo tivesse, de fato, a aparência de uma história infantil.
Foi então que outra corrente de solidariedade entrou na história.
Uma amiga havia comentado no LinkedIn que conhecia profissionais ligados às áreas de comunicação, publicidade e design interessados em ajudar, de alguma maneira, as pessoas afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Entrei em contato com eles para perguntar se topavam ilustrar a história.
Eles não trabalhavam com ilustração infantil, mas me indicaram o Harmon Lacerda, desenhista brasileiro nascido no Amapá, que vivia na Colômbia e já havia morado no Rio Grande do Sul.
Contei ao Harmon sobre o projeto e ele aceitou fazer as ilustrações voluntariamente, como sua maneira de contribuir, e assim, A Cidade da Joaninha ganhou cores e uma identidade. E do PDF, migraram para as páginas da edição publicada.
A Cidade da Joaninha, portanto, é também resultado de algo que marcou profundamente aquele período: pessoas tentando ajudar outras como podiam, lançando mão daquilo que sabiam fazer.
Histórias podem nascer de necessidades reais
A Cidade da Joaninha não nasceu porque eu decidi, em algum momento, escrever uma obra infantil sobre chuva. Ela nasceu de um problema real.
Havia crianças assustadas. Havia uma pessoa cuidando delas que percebeu esse medo e pensou em uma maneira de ajudá-las. Houve uma escritora que tentou transformar essa necessidade em história, um ilustrador que ofereceu seu trabalho voluntariamente e uma psicóloga que contribuiu com seu conhecimento para que essa história pudesse seguir adiante com o cuidado necessário.
Só depois veio o livro.
Essa experiência também diz muito sobre o tipo de trabalho que desenvolvo na Era Uma Vez.
Uma escola, uma empresa, uma organização social ou um projeto educacional pode ter uma causa, uma iniciativa, um conhecimento ou uma questão importante para compartilhar com as crianças, mas não necessariamente saber como transformá-los em uma narrativa capaz de realmente conversar com elas.
É aí que uma história pode começar.
Existe um tema que sua escola, empresa ou organização gostaria de transformar em uma história para crianças? Eu estou aqui para ajudar a conta-la!
A Cidade da Joaninha foi publicado pela Editora Ases da Literatura, sob o selo Asinha, e pode ser adquirido pela Amazon.

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